Pontualmente as 5:30 da manhã no dia 04/06/2017 em Durban na Africa do Sul foi dada a largada para a 92a Comrades Marathon. Nesse ano 17.031 corredores sairam dispostos a vencer os 86,73 kms entre Durban e Pietermaritzburg. No final do dia as 17:30, apenas 13.852 corredores conseguiram completar a corrida no tempo limite de 12 horas. 18,66% de não concluintes não parece muito mas se considerar que isso representa 3.179 corredores que se prepararam para a rainha das ultramaratonas e mesmo assim não completaram começamos a ter a dimensão da dificuldade da prova.

 

As 4:20 da manhã saimos caminhando do hotel eu e o Leandro de Carvalho rumo a largada da Comrades. De Maringá apenas nós dois decidimos encarar a Uprun (ano de subida) da Comrades esse ano. Entretanto os brasileiros estavam bem representados tendo mais de 170 inscritos na prova e sendo uma das maiores delegações de atletas estrangeiros (a quarta maior delegação). Boa parte dessa delegação manteve contato durante o ano todo pelas redes sociais trocando dicas, apoio, se ajudando e criando laços de afinidade e amizade. Comrades é amizade.

 

O clima estava bom, a rua estava repleta de corredores seguindo uma procissão silenciosa, e para nós sagrada, rumo as baias onde os corredores se posicionavam de acordo com o seu tempo de qualificação obtido em provas de maratona ou ultra maratona nos 10 meses antecedentes a corrida.

 

Diferentemente da edição de 2016, esse ano eu havia conseguido dormir bem a noite e estranhamente eu me sentia calmo e confiante. Digo estranhamente pois há quinze dias atrás, no final dos meus treinos de subida eu havia lesionado o anterior tibial da minha perna esquerda. 15 dias deveria ser tempo suficiente para descansar a perna e resolver a lesão, mas infelizmente não foi o que aconteceu. Dois dias antes da prova fiz um trote para sentir como estava e 3 kms foram o suficiente para doer a perna, levantar alguns calombos e aparecer algumas manchas roxas.

 

Bandeira vermelha, mas com apenas 48 horas para a prova não havia muito a ser feito. Com a orientação do meu fisioterapeuta (Juliano Alves Campos) e a ajuda do grande amigo comreideiro e médico Bruno Azevedo, fiz o que podia pela perna aplicando gelo e tomando anti-inflamatório.

 

Pela primeira vez na minha vida de corredor acabei recorrendo, também, ao uso de bandagens terapeuticas na perna. As bandagens coloquei na feira de exposição da própria prova que além desse serviço oferece aos corredores serviços de massagens e uma infinidade de estandes e barracas com os mais diversos produtos de corrida. Um verdadeiro parque de diversões para os corredores. Comrades é diversão.

 

Assim o cenário que eu tinha a minha frente não era nada animador. Era uma ultramaratona de 86,7 kms, com uma altimetra acumulada de aproximadamente 1700 mts de subida e 1200 mts de descida, atravessando o vale das mil colinas e uma perna enfaixada e lesionada que doeu com um trote de apenas 3 kms. Sabia que tinha chances reais de não conseguir terminar a prova, mas estava disposto a largar e ir até onde fosse possível. Comrades é coragem.

 

Depois de nos posicionarmos para largada, no horário marcado ouvimos o hino da Africa do Sul seguido do canto Zulu "Shosholoza" (considerado o segundo hino da Africa do Sul) e finalmente o tema do filme Carruagens de Fogo (hino dos corredores).

 

Já na baia de largada encontrei amigos da delegação brasileira. Delegação essa que está de parabéns pois esse ano fez uma campanha de coleta de doações de roupas e tênis e levou para as entidades assistênciais apoiadas pela Comrades mais de 700 pares de tênis e uma infinidade de camisetas, shorts, etc. Atletas de todo o Brasil se empenharam em arrecadar essas doações e levar um pouco da solidariedade brasileira para os jovens e adolecentes africanos. Comrades é solidariedade.

 

Muitas dessas doações foram entregue no orfanato Ethembeni que a delegação brasileira visitou na sexta-feira. Vimos crianças albinas (rejeitadas devido a ignorância de suas famílias), crianças com necessidades especiais, cadeirantes, anões, crianças com uma vida dura e difícil, mas todas lindas e alegres em nos receber. Elas nos presentearam com umas pulseirinhas de contas coloridas feitas por elas para usarmos na corrida. Cada pulseira tinha 87 contas representando os kms da corrida. Comrades é emoção.

 

Durante a corrida fui encontrando outros amigos brasileiros. Com as dificuldades que enfrentava nessa corrida a companhia deles foi essencial para ajudar a completar a prova. Comrades é companheirismo.

 

A lesão atrapalhou? Certamente que sim, mas nos meses anteriores a prova não foi nem um, nem dois amigos corredores que tiveram dificuldades com lesões que atrapalharam sua preparação. Conversávamos constantemente e pude acompanhar a sua luta pela recuperação e o esforço para poder se preparar para prova. Além disso outros amigos corredores estavam enfretando dificuldades durate a prova, eu não era o único. Comrades é superação.

 

No meu caso a dor só se manifestou de maneira irritantemente presente a partir do km 30. Para quem esperava a dor já nos primeiros kms a folga de 30 kms era mais que uma benção e era tudo o que eu precisava para ganhar a confiança e a certeza de que poderia terminar a prova. Comrades é confiança.

 

A prova conta com mais de 44 pontos de hidratação, o suporte é incrível com água, isotônico, coca-cola, banana, laranja entre outros. Além disso durante todo o percurso da corrida existem diversas tendas de massagem e fisioterapia com profissionais para ajudar os corredores. No km 50 precisei recorrer a uma dessas tendas e pedi que colocassem bandagens também no meu joelho esquerdo que estava sobrecarregando devido as minhas tentativas de mudar a passada para aliviar a dor.

 

A partir do km 70 era impossível correr no plano e na descida e isso me atrasou mais ainda, já não tinha mais truques para driblar a dor. Desse momento em diante sempre que a dor tentava me impedir de continuar eu olhava para a pulseira que havia ganho das crianças do orfanato. Assim eu lembrava da alegria e da força daquela criançada guerreira e isso era o suficiente para deixar minha dor sem importância. Essa pulseira foi o presente que me inspirou para lutar até o final. Comrades é inspiração.

 

Com 10 hsr e 57 mins eu cruzei a linha de chegada. Um tempo muito acima do possível baseado nos meus treinos, mas uma grata surpresa se considerar que quase não pude correr. Para completar minha alegria minha esposa e filha estavam me aguardando na chegada e pude compartilhar com elas a felicidade de mais uma vez vencer os desafios da Comrades. Comrades é se fortalecer com a jornada.

 

 

Mais tarde já na tenda internacional encontrei os companheiros brasileiros. Entre eles Cleber Isbin (campeão do desafio do Samurai da Mizuno Uphill 2016) que estreiou magnificamente esse ano sendo o segundo melhor brasileiro em 2017 com 6:38. Farnese da Silva além de ser o melhor brasileiro em 2016, foi também o melhor brasileiro em 2017 batendo o recorde brasileiro e sul americano da prova com 6:24. Zilma Rodrigues da Silva completou sua décima Comrades sendo a segunda brasileira a conquistar o Green Number. O Leandro também estava lá e havia completado a prova com a excelente marca de 9:32.

 

Junto com eles e outros amigos festejamos e celebramos as conquistas que fizeram parte da nossa participação da Comrades 2017. Definitivamente Comrades não é apenas uma corrida.

 

César Moro - Ultramador