Bem vindo(a) a eucorro.com!

Novidades


Desde que passei a conhecer essa prova ela sempre me pareceu algo distante e quase inatingível. Afinal se para correr a maratona que tem 42 kms já é necessário muito treino e dedicação imagina para correr 89 kms. Mesmo assim a idéia de correr ultra maratonas sempre me atraiu, uma atração que terminava rapidamente quando eu finalizava uma maratona e através de uma auto análise percebia ser impraticável correr mais 40 ou 50 kms na situação que eu estava.

Já tinha o ano de 2016 planejado, uma maratona no primeiro semestre, algumas provas de montanha e em setembro a Mizuno Uphill, uma maratona de subida na belíssima Serra do Rio do Rastro. Essa seria a prova alvo de 2016. Mal sabia eu que meu amigo Masson tinha outros planos para nós. José Arnaldo Masson é meu amigo de corridas e há dois anos atrás naquelas conversas de corredores sonhando com as provas que gostariamos de fazer combinamos de correr a Comrades no futuro (dali a 2 anos) se tudo corresse bem (perdoem o trocadilho).


Medalha - Foto: Sandro Cabral - Amplie
Medalha - Foto: Sandro Cabral
Dois anos se passaram e para minha surpresa meu amigo estava firme no propósito de atravessar o oceano e encarar a corrida que atravessa o "Vale das mil colinas".

A Comrades acontece na Africa do Sul entre as cidades de Durban e Pietermaritzburg. Em um ano ela segue de uma cidade para outra e no ano seguinte inverte-se o sentido. Durban é uma cidade costeira enquanto Pietermaritzburg já se encontra bem acima do nível do mar, de forma que em um ano o percurso tem mais subidas e no outro mais descidas. No ano que sobe a prova tem 87 kms e no ano que desce 89.

Em 2016 a prova seria de descida (descobri mais tarde que tinha muita subida nessa descida), ou seja seriam 89 kms, que imaginavamos nós seria um percurso mais favorável, afinal para baixo todo santo ajuda. Pois bem 2016 era um ano de descida e o Massom estava treinando para prova, de minha parte eu confesso que não pensava em Comrades afinal já tinha meu roteiro e metas traçados.

Tudo começou a mudar quando em uma manhã de março ao final de um treino com meu colega Welinton Stavarengo (que vai comigo para uphill) o Masson nos encontrou e insistiu muito que eu o acompanhasse na Comrades. Expliquei para meu amigo que seria impossível eu ir, não tinha me programado financeiramente, estava tratando uma lesão (pubalgia, chata de melhorar), passagens aereas em cima da hora são muito mais caras, as inscrições já tinham acabado e para completar faltavam 2 meses para prova e eu não estava treinando para esse volume. Nesse momento descobri que ele também não tinha inscrição, mas que estava em uma fila de espera caso alguém desistisse. Devido a insistência do Masson lhe fiz uma proposta. Colocaria meu nome na fila de espera e caso fossemos contemplados e eu conseguisse as passagens aereas por milhas eu o acompanharia. Ou seja não iriamos pois a possibilidade disso dar certo era minuscula.

A Comrades é uma das mais antigas, famosas e celebradas ultra maratonas do mundo. Como o próprio nome diz (comrades significa camaradas em inglês) é uma corrida onde o mote principal não é a competição, mas sim a camaradagem, companheirismo, superação e com certeza coragem.

É fácil afirmar isso quando se observa a história de como começou a Comrades. Ela surgiu em 1921 com o objetivo de homenagear os combatentes da primeira guerra mundial que tombaram em batalha. Assim em uma época quando a maratona com seus 42 kms por si só ainda era um desafio herculeo, um grupo de bravos resolveu correr 89 kms para homenagear seus camaradas.

Se é fácil afirmar, baseada em sua história, que esses são os valores da Comrades mais fácil foi perceber esses valores incorporados nos corredores que conhecemos nessa prova. Mas estou me adiantando um pouco, logo chegaremos ai. Sabendo da impossibilidade de irmos para Comrades voltei a minha rotina de trabalho e treino, mas o Masson se mostrou mais persistente do que eu imaginava. Através de uma empresa de turismo especializada descobriu um caminho para fazermos a inscrição da prova. Fariamos nossa inscrição através de uma instituição de caridade africana. Por meio de uma doação poderiamos correr por eles.


César Moro e Mason ultra maratonistas - Foto: Sandro Cabral
César Moro e Mason ultra maratonistas - Foto: Sandro Cabral


Esse foi o momento que comecei a me preocupar por todos os motivos que já relatei, e foi justamente nesse momento em que o apoio da família, amigos, treinadores e profissionais de saúde fizeram toda a diferença. Foram eles que mesmo sabendo de todas as dificuldades e chances de não dar certo acreditaram e me incentivaram a seguir em frente.

Assim decidi mergulhar de cabeça e com a decisão tomada só precisava arranjar o dinheiro, as passagens, melhorar da lesão e treinar para uma ultra maratona em 7 semanas. Não estava nem sossegado e nem favorável. Fizemos nossas inscrições na Comrades e descobrimos que seria necessário uma prova qualificatória de no mínimo 42 kms, reconhecida oficialmente e realizada nos 6 meses antecedentes a prova. A maratona de SP se encaixava nos requisitos e assim participamos da maratona e aproveitamos para rodar mais 22 kms depois dela, completando um dos treinos longos do nosso planejamento.

O tempo passou e finalmente estavamos a caminho da Africa. Já no aeroporto conhecemos diversos brasileiros embarcando no avião. Foi ai que começamos a perceber que os participantes realmente vivenciavam o espirito da prova. Fomos muito bem recebidos pelo grupo de brasileiros. Entre eles haviam corredores que já tinham feito mais de 10 Comrades outros que completariam a décima e obteriam seu green number (já explico o que é isso), corredores com mais de 100 maratonas nas costas, campeões de ultramaratonas, iniciantes, ou seja todo tipo de corredor. Mas invariavelmente, todos eles incorporavam o espírito do companheirismo. Independenete de suas conquistas pessoais nenhum se mostrou arrogante, pelo contrário os veteranos eram os mais amistosos ao receber nós estreantes. Reunimos todos, fizemos a foto com a bandeira do Brasil no aeroporto e seguimos viagem com novos amigos.

E o green number o que é? Na Comrades para obter o green number um corredor precisa participar de pelo menos 10 corridas (há não ser que seja chegue em primeiro lugar ou esteja entre os 10 primeiros ai o número de corridas é menor). Quando alguém completa sua décima corrida ele ganha o direito de ter um número vitalicio na Comrades. Cada vez que vc se inscreve na prova vc recebe um número aleatório mas quando vc ganha o green number aquele número passa a ser somente seu. Sempre que vc correr a Comrades vc terá esse mesmo número e ele nunca será usado por outro corredor. Além disso na exposição e feira de entrega dos kits da corrida existem produtos exclusivos para quem tem o green number e durante a corrida o seu número de peito é (obviamente) verde diferente dos outros em cor branca.

Nossa viagem foi de SP para Johanesburg (capital da Africa do Sul) e depois pegamos outro vôo até Durban.

Durban é uma cidade turística muito bonita e que respira corrida. A orla maritma conta com um calçadão para corrida onde centenas de corredosres de todos os lugares do mundo se encontram nos dias que antecedem a Comrades. Não tive tempo de me informar sobre a cidade, estavamos indo apenas para correr e voltar. Todo aquele clima em volta da corrida e beleza da cidade foram uma grata surpresa.

Na Africa do sul a moeda oficial é o Rand, assim levamos dólares e trocamos por Rands no próprio aeroporto de Johanesburg. Conseguimos assim melhores taxas do que quem deixou para fazer a troca em Durban. O cambio entre o Rand e o real nos é favorável. Assim os gastos com deslocamento e alimentação durante a estadia ficaram bem em conta. A expodição e feira onde se pega o Kit é espetacular. A prova é patrocinada pela New Balance que tem uma loja de produtos oficiais com a marca da prova, mas além dela existem dezenas de outras tendas com diversos produtos para corredores.

Um ponto alto da feira era a área de massagem para os corredores. Todo dia faziamos nosso trote na orla, tomávamos nosso café e iamos para exposição fazer massagem antes de passear nas tendas. A massagem é sem custo. A prova acontece no domingo e esse ano a chegada foi em Durban onde estavamos hospedados, então já no sábado a tarde fomo para Pietermaritzburg para dormirmos lá e seguirmos cedo para a largada da prova. Outros atletas sairam de Durbam as 3:30 da manhã em ônibus fornecidos pela organização da prova.

A largada aconteceu as 5:30 pontualmente. Largaram quase 17 mil corredores. É tocado o hino da Africa do Sul, depois um canto Zulu chamado Shosholoza e finalemente o tema de carruagens de fogo. O clima estava agradavelmente frio. Largamos com algo em torno de 10 graus e fechamos com algo em torno de 25 graus.

A prova tem vários pontos de corte, são 5 ao total. O penúltimo no km 82 e o último na chegada. Os corredores que não alcançarem os pontos de corte dentro dos horários limites não podem concluir a prova. Na chegada o último corredor a completar a prova dentro das 12 horas limite tem o mesmo tratamento do primeiro colocado enqaunto que os demais não recebem medalha.


Momentos da Corrida - Amplie
Momentos da Corrida
Por isso o final da prova é algo emocionante, ficamos assitindo e torcendo por aqueles corredores que estão próximo ao limite, fazendo um esforço final para conseguir completar a prova dentro do tempo. Não é incomum assistir situações dramáticas onde o atleta está no seu limite e não consegue completar a prova devido a poucos metros.

Vimos colegas sacrificarem seus tempos para literalmente carregar outro colega até a linha de chegada. Vimos uma corredora cair a 50 metros da chegada e não conseguir mais levantar, mesmo com a ajuda de outros corredores, e não conseguir completar a prova.

Dito isso é importante explicar que o apoio da prova é ótimo. Ela teve 46 pontos de apoio. Inicialmente mais espaçados, mas no final os pontos não chegavam a ter 2 kms de distância. Nos pontos de apoio foi tinhamos inicialmente água e isotônico, mas a medida que a prova avançou eram servidos ainda Coca cola, batata inglesa salgada, banana, laranja. Além disso a população vem para rodovia onde acontece a corrida e monta barracas onde dão apoio aos corredores, oferecendo cadeiras, comida, vaselina, sprais analgésicos, etc. Durante o percurso também existem pontos de massagem, pontos para passar um gel de arnica nas pernas, gelo etc. Isso fora as atrações em diversos pontos do percurso.

A Comrades é uma grande festa onde o corredor é apoiado e estimulado o tempo todo. Por diversas vezes ouvi meu nome (liam no meu número do peito) com gritos de apoio. Nunca tinha participado de uma corrida onde o apoio da população fosse tão grande. Conversei com amigos que beberam cerveja, comeram churrasco, tudo isso oferecido pelo pessoal que assistia a corrida. Tudo isso, todo esse clima, todos essem exemplos fazem da Comrades um evento único.


César Moro e Mason ultra maratonistas - Foto: Sandro Cabral
César Moro e Mason ultra maratonistas - Foto: Sandro Cabral


Apesar de ser o ano de descida na altimetria do relógio ficou registrado uma altimetria de subida acumulada de 1100 mts e de descida de 1700 mts, ou seja tivemos muitas subidas. Realmente o "Vale das mil colinas" tinha várias colinas e algumas montanhas.

Terminamos a corrida dentro do tempo limite, eu e o Masson. Ele chegou primeiro, estava feliz e sorridente quando fui para tenda internacional depois da chegada. Isso me aliviou o coração pois estava preocupado com ele. Preocupado porque? Bem meu amigo resolveu estrear sua primeira ultra maratona para comemorar seus 70 anos.

No início dessa história quando eu tentava convencê-lo a fazermos isso daqui a 2 anos ele me falou: "Cesar eu não sei se emplaco daqui a dois anos, não posso contar com esse tempo.". Foi assim que ele me desarmou, encerrei meu caso e entrei também no espirito da Comrades: "Tá bom Masson eu vou com vc nessa corrida."

Não tenho palavras para explicar o quanto sou grato por isso.

Agora só nos resta nos prepararmos para 2017. Shosholoza!!!

Texto: César Moro - Ultramaratonista.





 COMENTÁRIOS (0)

Faça seu login no topo da página para enviar seu comentário, se você ainda não é cadastrado clique aqui.